Uma carta de Celso Braga à Light

À Light Serviços de Eletricidade S. A Av. Mal. Floriano, 168, Centro Rio de Janeiro-RJ


O jornalista Ancelmo Gois divulgou em sua coluna, no jornal O Globo, de 21-11-2020, a seguinte nota: “Machado de Assis – Está de volta o prêmio Machado de Assis, que foi o principal prêmio literário do país, oferecido pela Academia Brasileira de Letras – (ABL) a maiores, a partir de 1941. A Light, sob nova direção, resolveu patrocinar a homenagem por dez anos. Os vencedores recebem um valor em dinheiro, um diploma e, desde 1998, um troféu criado pelo escultor Mario Agostinelli, um pequeno busto de Machado de Assis.”


Trata-se de uma belíssima manifestação que merece o meu aplauso e a minha gratidão e me possibilita a oportunidade de tecer as seguintes considerações: a Light teve, pelo menos, cinco integrantes da ABL. O primeiro foi Rui Barbosa que desempenhou na empresa funções equivalentes às de Secretário Geral. Os livros de atas lavrados por ele existem e estão preservados, foram encaminhados à Casa Rui Barbosa e estão disponíveis para consultas. O outro foi Miguel Reale, vice-presidente jurídico da Companhia, professor, escritor e autor da Teoria Tridimensional do Direito, considerado jurista da maior importância. A lista segue com Odilo Costa, Filho, escritor e jornalista; Américo Jacobina Lacombe, historiador; Cândido Mendes, jurista, escritor e professor.

É importante acrescentar que outras pessoas de grande relevância para a cultura do país também trabalharam na Light, vamos a alguns deles: José Rubem Fonseca, considerado por boa parte da crítica literária o maior contista moderno do Brasil. José Rubem faleceu recentemente nos deixando uma vasta obra; Prudente de Moraes Neto, escritor, participante da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922, e presidente da Associação Brasileira de Imprensa – ABI; Raimundo Faoro, escritor, jurista e presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB; Tobias Pinheiro, poeta, presidente da Academia Carioca de Letras; Célio Borja, escritor, Ministro do Supremo Tribunal Federal – STF, Ministro do Tribunal Superior Eleitoral – TSE e Ministro da Justiça; Luiz Antônio de Andrade, presidente do Tribunal de Justiça-RJ e membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas; Sergio Cabral, que nada tem a ver com os descaminhos do filho homônimo, jornalista , escritor, produtor musical, divulgador e defensor da cultura musical brasileira; Caio Tácito Pereira de Vasconcellos, escritor, jurista, membro do Conselho Federal de Educação e reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro- UERJ; Helion Póvoa, membro da Academia Nacional de Medicina; Rafael de Almeida Magalhães, vice-governador do Rio de Janeiro, no governo Carlos Lacerda; Alfredo Lamy Filho, escritor, professor, advogado que, em conjunto com José Luiz Bulhões Pedreira, redigiu a Lei de Sociedades Anônimas (Lei 6. 404, de 15/12/76) e Charles Julius Dunlop, escritor citado em quase todas as bibliografias de obras dedicadas à história do Rio de Janeiro.


A propósito, creio que em nenhuma empresa e, em qualquer outro lugar, pudessem ser encontradas tantas obras, estudos, projetos, fotografias e desenhos relativos à cidade do Rio. Somente na biblioteca, mantida pelos empregados, havia oito livros da lavra de Dunlop sobre esse assunto.

As fotos referidas anteriormente, em grande parte, foram feitas por profissionais do porte de André-Charles Armeilla, na primeira década do século XX; Marc Ferrez e Augusto Malta, posteriormente. Este último produziu tanto que nos leva a crer que também tenha sido empregado da Companhia, entretanto não tenho essa confirmação.

É fundamental registrar que a Light não se destacava apenas por possuir esse quadro inigualável de intelectuais, tinha em sua base um número imenso de empregados considerados verdadeiros mestres em suas funções, seria impraticável falarmos de todos, portanto vamos exemplificar com apenas uma categoria, a dos marceneiros.

Todo o mobiliário existente na Companhia era feito em Triagem, uma espécie de parque industrial da Empresa, que prestava também serviços especializados a outras indústrias. No mobiliário da Light havia peças que poderiam figurar em qualquer exposição internacional de móveis, exemplifico com uma cristaleira de jacarandá maciço que, na verdade, guardava documentos, uma verdadeira joia, existente na antessala do Diretor Financeiro. Sr. Ralf Edward Spence e que lá permaneceu até a diáspora lightiana de 1996. Depois, aposentei-me e mais não sei.

Os bondes elétricos foram um capítulo à parte na história da Light, do Rio de Janeiro e do país. Não se conhece no mundo nenhuma outra cidade servida nesse setor como o Rio, tanto em quantidade como em qualidade, por exemplo: quando se fazia qualquer reparo nas linhas, o refazimento da superfície era tão bem realizado que, às vezes, tonava-se impossível identificar a intervenção, parecia uma costura.

Como se sabe, esses veículos tinham uma estrutura de ferro, entretanto seu interior era totalmente constituído por madeiras. Aí é que os admiráveis marceneiros mencionados entram em cena novamente. Todas as peças tinham um acabamento perfeito, eram os bancos, os balaústres formados por hastes, pelas colunas de sustentação e pelos apoios indispensáveis à segurança dos passageiros. Tudo isso feito à mão, com aquele ferramental da época, constituído por formão, grosa, lima, plaina, furadeira manual e outros utensílios, hoje, inteiramente superados.

Os bondes eram abertos, portanto arejados, uma concessão feita ao nosso país tropical por aquele povo originário de uma ilha britânica fria e distante que resultou em menor custo e maior satisfação do usuário.

É fundamental perceber que os bondes, além de sua finalidade básica e essencial, transportar passageiros e cargas, numa época inicial em que não existiam automóveis e similares, porquanto chegaram posteriormente em número reduzido, tinham também finalidade social. Observamos que todos os cemitérios eram servidos por linhas regulares de bondes, vejamos: Botafogo, Catumbi, Campo Grande, Caju, Inhaúma, Irajá e até mesmo Cacuia, na Ilha do Governador. Esses bondes transportavam os caixões e as pessoas que se dirigiam aos sepultamentos dos seus.

Havia bondes em todos os bairros do Rio e em muitos subúrbios, inclusive em alguns dos mais longínquos. Por curiosidade, lembro que a palavra “cucuia” corruptela de Cacuia, significa morte, devido à relação metafórica com o cemitério lá existente. O bonde fazia parte da vida da cidade, do seu cotidiano, impossível, por exemplo, dissociá-lo do carnaval, era partícipe da festa, dos textos jornalísticos, das fotos, das telas de cinema e das músicas carnavalescas.

O interior desses veículos, na parte mais alta, era repleto de mensagens comerciais que ajudavam financeiramente a mantê-los. Algumas dessas mensagens foram tão marcantes que são lembradas, na íntegra, até hoje, como esta de autoria do poeta Bastos Tigre: “Veja, ilustre passageiro, que belo tipo faceiro o senhor tem ao seu lado, mas, no entanto acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado”.

O bonde, portanto, além de bem cumprir suas funções básicas, ajudou a fazer o sucesso de muitas empresas brasileiras, divulgando seus produtos e serviços numa época em que não existia a televisão e outros instrumentos para fazê-lo.

É necessário enfatizar que a Light demonstrava um cuidado especialíssimo com as relações interpessoais de seus empregados. Existiam seções voltadas exclusivamente para essa finalidade, realizando ações culturais, sociais, recreativas, artísticas, educacionais, esportivas (muitas) e eventos festivos. A Light promovia ainda inúmeros cursos profissionalizantes, todos com uma característica comum: a extrema qualidade. A Companhia também promovia palestras com pessoas de destaque no teatro, cinema e literatura.

Havia também o apoio material e até mesmo financeiro, em determinadas ocasiões, às instituições criadas e totalmente conduzidas sob a responsabilidade dos funcionários, entre elas a Colônia de Férias dos Empregados, que sobrevive até hoje, no Município de Vassouras. Houve época em que o empregado, para fazer uma reserva, tinha que dormir na fila, tão grande a procura. Existia a Cobanlight, espécie de banco, criado e administrado pelos próprios empregados, que promovia empréstimos financeiros àqueles que necessitavam. Clubes de futebol e outros esportes eram muitos. Havia um clube de excursionistas e um grupo dedicado à espeleologia, liderado pelo professor Carlos Manes Bandeira.

É válido acrescentar que existia um setor denominado Salão de Recreio que ficava próximo à biblioteca dos empregados e aos três restaurantes existentes na Rua Larga. Ali eram disponibilizados jornais, revistas e jogos de mesa, exceto cartas. Ao lado, havia um auditório, com piano e outros equipamentos onde se apresentavam artistas, especialmente cantores como: Elizete Cardoso, Dircinha Batista, Ciro Monteiro, Osmar Navarro, Jorge Veiga, Jair Alves, Elza Soares e também empregados que tinham uma certa qualidade musical.

É evidente que esses tempos, por muitas razões, não retornarão jamais, permanecem apenas em nossas lembranças. Entretanto, não seria impossível se fazer um convite a Elza Soares, a única desse grupo que está entre nós, para se reapresentar. Elza está lúcida e produtiva e, creio, receberia esse convite de maneira afetuosa. Seria uma homenagem à cantora, aos empregados, sem mencionar a visibilidade extremamente positiva que essa iniciativa oportuna, por vários motivos, traria à Companhia.


Atenciosamente,

Celso Braga de Mello

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